-Eu fiz um pacto com o Diabo – disse ele esfregando os cabelos crespos e mal cuidados com nervosissimo, e aqueles olhos castanhos esbugalhados e avermelhados, e a boca seca, e a testa suada.
-O que? – a mulher perguntou.
-Eu fiz um pacto com o Diabo – repetiu.
-Do que você está falando? Que merda que você fez dessa vez, seu infeliz? – ela inclinou para frente em desafio.
-Eu já falei, porra – gritou ele – Você é surda? Eu fiz um pacto com o diabo.
-Ficou devendo a alguém? – ela insistiu com a mesma cara de desgosto que havia se habituado a fazer. Ainda se perguntava: como aquele traste ainda estava vivo? Como ninguém ainda tinha dado um “jeito” nele?
-Ao diabo, porra. – ele tremeu.
A mulher deu as costas. Foi a geladeira, pegou uma garrafa de água e um copo e levou pra mesa. Encheu o copo, mas antes que pudesse beber, o homem o fez num gole só. Parecia um viajante perdido no deserto.
-O que que tu fez agora, hein? Quem tu ficou devendo, seu cabra safado? Tu não vale porra nenhuma mermo né? Até quando meu Deus? Até quando, cacete? – ela levantou as mãos para o céu, mas só viu o teto com reboco soltando e a lâmpada queimada que o homem não havia trocado.
-Eu fiz um pacto com o “coisa ruim”, com o “cão” – ele se sentou apoiando-se sobre os cotovelosa – E agora fudeu tudo. Fudeu tudo. Ele tá vindo cobrar a dívida. Eu vou morrer, cacete.
Ele quase chorou. Ela quase lhe deu uma bofetada na cara. Até daria, mas sabia que receberia outra de volta. Apanhava quase todo dia. Já tinha ido a delegacia, mas tirava a queixa no dia seguinte. Gostava daquele homem. Gostava de ir pra cama com ele. Já tinha visto ele alucinado por causa de bebida antes. Ou por causa do danado do crack. Mas algo estava diferente nele hoje. Ele estava com medo. Medo de verdade. Medo pulsante, crescente.
-Tu sumiu durante uma semana – disse ela – Desapareceu. Não sei em qual puteiro tu foi se enfiar dessa vez, nem com qual puta tu se deitou, nem em qual mesa tu cheirou… mas com quem tu se meteu? Quem tá vindo cobrar essa tal dívida? Eu vou te largar, homem, escuta o que eu to te falando.
Ele levantou derrubando a cadeira. Num soco quebrou o rádio sobre a estante. Berrou, g]rasgou a camisa e bateu a cabeça contra a parede até fazer sangrar o supercílio.
A mulher chegou pensar em sair correndo. Mas ele trancou a porta. E contou que havia ido na macumba. Que foi falar com o Pai Dora. Que queia um pacto com o diabo. Que queria por um dia ser alguém. Que queria mandar o chefe enfiar a enxada no rabo. Que queria enfiar a enxada no rabo do chefe. Que queria comer a filha do chefe dele, aquela ninfeta safadinha, que rebolava de propósito pra ele, mas que só dava para os “mauricinhos” da faculdade. Que queria tomar champanhe e comer lagosta no restaurante onde ele passava todo dia em frente antes de ir pra obra. Que queria vestir terno igual ao do presidente. Que queria cheirar dois quilos de cocaína. Que queria fumar pra cacete. Que queria peidar cheiroso. Que queria enfiar a porrada em meia dúzia de ricaços que esnobavam sua origem. Que queria muita coisa.
-Acho que um dia é pouco – disse ele para o Pai Dora – Vou precisar de uma semana.
Pai Dora deu-lhe três sopapos e mandou-lhe embora dali. Se queria bruxaria que fosse em outro lugar.
E ele foi na casa de um médium. Disse-lhe que queria um pacto com o diabo. Que queria andar de Ferrari. Que queria surfar no Havaí. Que queria voar. Voar mesmo, sem ajuda de nada.
-Meu senhor, o que o senhor está me pedindo é impossível – disse o médium.
-Mas eu pago, porra. Vou pedir dinheiro ao Diabo. E aí eu te pago.
-O senhor pode ir embora, por favor? – pediu o médium.
-Tu tem que me ajudar – gritou.
-Mas não tem como. Você bebeu, seu cachaceiro?
-Eu quero falar com o demo.
-Pelo amor de Deus, meu senhor, vá embora daqui, ou eu chamo a polícia.
Desesperado, pensou em se jogar nos trilhos do trem. Se livrar de tudo. Chutar o pau da barraca e ir embora dessa vida de merda de uma vez por todas.
Mas então ele se lembrou do Zé. O Zé do armazém lá da rua que faz paralelo à estação de trem. Ele tinha uns amigos que eram muito chegados do “bicho ruim”.
E foi até lá. E contou que queria um pacto com o Diabo.
E um pacto com o Diabo ele fez. Teve que se deitar com três dos cinco amigos do Zé. E teve que fazer uma tatuagem nas costas. E teve que cantar umas músicas estranhas. E teve que cortar os pulsos e as costas. E teve que rogar muito.
E a enxada ele enfiou no cú do patrão. E a filha do patrão ele comeu, na cama com lençol rosa dela, sujando tudo de poeira e terra. E ele comeu lagosta. E ele cheirou dois quilos de cocaína. E ele voou. E sem ajuda de nada.
-Tu enlouqueceu – a mulher disse, sentindo os pêlos dos braços se arrepiarem. Ela leu no jornal que o chefe do homem havia sido encontrado morto com uma enxada no rabo. Que sua filha fora estuprada dentro de casa. Que duas senhoras quase enfartaram quando viram um homem voando sobre a casa delas. Que um entregador de leite confirmou a história, pois também tinha visto o homem voador.
-Ele tá vindo, ele tá vindo – o homem riu loucamente – Olha ele vindo, olha ele vindo, cacete – O homem começou a pular.
A mulher pegou a chave sobre a mesa, destrancou a porta do apartamento mal cuidado e saiu apressada. Depois voltaria para arrumar as malas. Não iria mais viver com aquele homem. Aquele criminoso.
Foi para a casa das irmãs. Escureceu e ela dormiu por lá. Contou uma mentira qualquer, e jurou que não voltava para os braços daquele homem. Iria trabalhar de faxineira na casa da comadre granfina de uma velha amiga. Mas a noite foi longa. E ela não pregou os olhos.
Na manhã seguinte foi acompanhada do pai e da irmã mais velha pegar suas coisas. Se espantou com a Ferrari parada na esquina da rua onde morava sendo rebocada pela polícia. Disseram que “não estava registrada no nome de ninguém”. Não tinha nem placa. Se assustou quando viu o corpo de bombeiros na frente do prédio onde vivia com aquele homem miserável. E mais policiais e meia dúzia de curiosos.
Ela soltou um grito. Começou a puxar os cabelos e bater com os pés no chão. O pai abraçou-a tentando afastá-la do tumulto. O corpo do homem ainda estava lá estendido no chão. E o sangue escuro. E as tripas espalhadas.
-Foi suicídio – disse o legista.
Mas a mulher sabia. Não havia sido suicídio. Nem acidente. Foi o Diabo. Foi dívida cobrada.